Vender o carro sozinho ou consignar? A conta que quase ninguém faz
Seu carro provavelmente vale menos do que a Fipe diz, e cada mês anunciado custa dinheiro. Antes de decidir entre vender por conta própria e consignar, vale olhar o que pesa mais que a comissão.
Marcos Campos
Mercado sem filtro · por Marcos Campos
Sábado de manhã. Você anunciou o carro, e o celular não para: proposta de metade do preço, gente perguntando “qual o menor valor?” sem nem ter visto o carro, um desconhecido querendo ver o carro na porta da sua casa. Fim de semana com a família? Vai ficar pra depois.
Eu tenho família, tenho minhas filhas. Eu não me sujeito a isso. E olha que eu sou do ramo.
Em uma frase, sem massagem: vender sozinho parece economia, mas no Brasil de hoje quase sempre é o caminho mais caro, e o mais arriscado.
Seu carro vale menos do que a Fipe diz, na maioria dos casos
Esse é o ponto que mais pega quem vai vender. Um levantamento da Auto Avaliar com os 25 usados mais procurados do país mostrou que, em 12 meses, o preço efetivamente pago caiu em média 10,2%. A Tabela Fipe, no mesmo período, caiu cerca de 4%. Tem modelo que caiu bem mais: o Jeep Compass, 15,7%; o Renegade, 13,8%; o Tracker, 13,5%.
E tem um dado que mostra o tamanho da virada. Em agosto de 2025, mais ou menos um em cada três desses modelos era vendido acima da Fipe. Um ano depois, isso acontecia em só 0,8% das negociações.
Na prática: você olha a tabela, acha que seu carro vale 160 mil, e o mercado paga 145. Esse buraco é perigoso. A Fipe é uma média, e não acompanha a velocidade com que o mercado mexe. Ainda mais agora, com os chineses baixando o preço do 0km e puxando o usado junto.
Tem exceção, claro. Carro muito conservado, versão difícil de achar, modelo com pouca oferta: esse vale Fipe, às vezes até mais. Aqui na loja mesmo tem muito carro anunciado pela tabela. O problema não é pedir Fipe. É pedir Fipe sem olhar o mercado do seu carro.
Eu tô no ramo há 24 anos. A única vez que eu vi a tabela subir de verdade foi na pandemia. No resto do tempo, ela cai. Todo dia um pouquinho.
O que custa mais: a comissão ou o tempo?
Bora fazer a conta. Pega um carro de R$ 150 mil que siga a média dos mais procurados: perder 10,2% em um ano dá, em média, uns R$ 1.270 por mês. Se for um modelo que caiu como o Compass, passa de R$ 1.900 por mês.
Uma consignação costuma custar entre 5% e 6% do valor. Em R$ 150 mil, 5% dá R$ 7.500. Isso é mais ou menos o que um carro desses perde em seis meses de anúncio parado (e em três ou quatro, se for um dos que mais caíram). Quem já tentou vender sozinho sabe que seis meses passam rápido.
E tem o calendário. Virou o ano, chega o IPVA, e você paga o imposto de um carro que nem queria mais. Pra completar, a própria Fenauto, que representa as revendas de usados, diz que o mercado pode oscilar por causa da eleição até o segundo turno, no fim de outubro.
O erro mais comum que eu vejo é esse: a pessoa tenta sozinha, o tempo passa, cai 3 mil, cai 5 mil, e aí ela corre pra uma loja na urgência. Venda na urgência é a pior venda que existe.
Golpe não é lenda
Segundo um estudo da própria OLX, os golpes online envolvendo compra de veículos somaram R$ 2,7 bilhões de prejuízo em 2023, em cerca de 91 mil ocorrências. São Paulo concentrou 28% dos casos. Carro foi 64% e moto, 31%.
E a coisa não está diminuindo. Segundo a Febraban, o golpe da falsa venda (de qualquer produto, não só carro) foi a fraude mais comunicada aos bancos no primeiro semestre de 2025: 174 mil casos, 314% a mais que um ano antes.
O mais clássico no nosso ramo é o golpe do intermediário: o golpista se coloca entre você e o comprador, cada um acha que está falando com o outro, e no fim alguém entrega o carro ou o dinheiro pra quem não devia.
Mas o risco não acaba no golpe. Aqui em São Paulo, quando a gente pega um carro na troca, consulta pelo menos seis sites pra checar multa e débito daquele veículo. E mesmo assim, mais de 20% das multas que chegam pra gente aparecem depois que o carro já foi vendido. E pela lei, enquanto a venda não é comunicada ao Detran, o antigo dono responde junto pelas multas (Código de Trânsito, art. 134).
Se pra uma loja que faz isso todo dia já é difícil controlar, imagina numa venda entre particulares.
Venda de carro no Brasil não é “paga e leva”
Na cabeça de quem anuncia, é simples: tira foto na garagem, sobe no portal, o comprador liga, faz um Pix e vocês vão ao cartório. Só que não é assim.
Segundo a Anef, que reúne as financeiras das montadoras, em 2025 43% das vendas de veículos foram financiadas e 9% foram por consórcio. Ou seja, mais da metade passou por financiamento ou consórcio. No usado, o crédito também manda: de janeiro a agosto deste ano, a B3 registrou 5,1 milhões de veículos financiados no país, e 62,5% deles eram usados.
Isso sem contar a troca, que aparece em boa parte das negociações. Tem comprador com carro pra dar de entrada, com duas cartas de consórcio, com financiamento pra aprovar. Quem não vive esse rolê todo dia não está preparado pra resolver.
Troca, financiamento, consórcio: na loja, isso se resolve na mesa, com o consultor.
Consignar sim, mas não com qualquer um
Agora o alerta, porque eu não vou falar só o que é bom pra mim.
Cuidado com quem promete demais. Tem gente que fala assim: “fica tranquilo, compra o outro comigo e deixa o seu aqui pra vender com calma, vai sair no melhor preço possível”. O que essa pessoa quer muitas vezes é tirar o pedido. Ela não quer pegar a troca nem a responsabilidade. Depois de um mês vem o “o mercado mudou, melhor baixar 10 mil”. E aí você entrega no consignado por menos do que entregaria na troca.
Quem é profissional fala o preço que é. Pode ser acima da tabela, pode ser abaixo, pode ser 20 mil abaixo. Mas é o preço real, porque carro bonito parado no pátio não é bom nem pra loja nem pra você.
Carro bonito parado não é bom pra ninguém. Carro bom é o carro que vende.
Se fizer só isso
Antes de anunciar sozinho ou deixar o carro em qualquer lugar, faz três coisas:
Descobre o preço real, não só o da tabela. Pede avaliação em mais de um lugar e compara com carros iguais anunciados há pouco tempo.
Faz a conta do tempo: quanto o seu carro perde por mês parado? Compara com o custo da intermediação.
Pergunta quem assume o quê: documentação, comunicação de venda, troca, financiamento e contrato. Se a resposta for “a gente vê depois”, desconfia.
Quando você tá doente, você se medica sozinho?
Eu sei que o ramo de carro tem fama ruim, e muitas vezes merecida. Tem falcatrua aqui, como tem em todo lugar. Mas tem muita gente séria fazendo trabalho decente Brasil afora.
Quando você se machuca, procura um médico. Quando precisa de contador, procura um bom contador. Com carro é a mesma coisa. Eu falo isso como pessoa física: eu não anuncio minhas coisas sozinho. Prefiro colocar na mão de um profissional e dormir tranquilo.
Produto bom é obrigação. É no serviço que a gente mostra a diferença.
Como a gente faz aqui
Pra você ter uma régua de comparação, é assim que funciona a venda do seu carro na Kiko:
Preparação e fotos no estúdio da Kikoautos, antes de o carro ir pro anúncio.
Custo: R$ 400 de ativação, que cobre preparação, fotos profissionais e anúncio em mais de 6 portais, e 5% só quando o carro vende. Sem mensalidade.
Preço: a gente define junto, com base no mercado real. Você só aprova a proposta final, e nunca abaixo do mínimo que você combinou.
Negociação: nossos consultores atendem os interessados e filtram os curiosos. Ninguém vai bater na sua casa no sábado.
Pagamento e papelada: você recebe à vista, no ato da venda, e a loja resolve transferência e documentação.
Tempo: no último trimestre, 53% dos carros que a gente vendeu assim saíram em até 15 dias.
Régua: o padrão é carro de 2020 pra cima, revisado e sem passagem por locadora ou sinistro. Fora disso, a gente avalia caso a caso.
Moto: a lógica é a mesma, com R$ 300 de preparação (já com vistoria cautelar) e, na venda, R$ 2.000 fixos até R$ 40 mil ou 5% acima disso. No último trimestre, 61% saíram em até 15 dias.
E o carro que vem por esse caminho é tratado igualzinho ao carro da loja: no pátio, ninguém sabe qual é qual.
E você: já vendeu carro sozinho? Deu certo, ou virou história pra contar? Me responde, que eu leio tudo.
Fica em paz, Marcos Campos Kikoautos · multimarcas desde 1988 · kikoautos.com.br
Fontes: Auto Avaliar, via g1/Agenda do Poder; Fenauto, via AutoData; OLX, via CNN Brasil; Febraban, via Diário do Comércio; Código de Trânsito Brasileiro, art. 134, via Portal do Trânsito; Anef, via AutoData; Trillia/B3, via Economic News Brasil e InfoMoney. A perda por mês e a comparação com a comissão são conta nossa com esses números. Os dados de multas, de prazo de venda e as condições da consignação são da Kikoautos (carros e motos).
Por onde começar na Harley-Davidson (e por que ninguém para na primeira)
Tem 123 anos, já esteve perto de quebrar e vende pouco no Brasil. Mesmo assim, quem entra nessa marca quase nunca sai. A explicação está nas famílias de modelos, nos motores e numa coisa que número nenhum mede.
O Compass não acordou ruim. Foram os chineses que mudaram a régua de preço e de entrega.
Setembro bateu recorde de vendas e os carros chineses já são um em cada cinco carros novos. Ninguém derreteu. O que mudou foi o preço, e isso mexe com quem vai comprar e com quem vai vender.