O Compass não acordou ruim. Foram os chineses que mudaram a régua de preço e de entrega.
Setembro bateu recorde de vendas e os carros chineses já são um em cada cinco carros novos. Ninguém derreteu. O que mudou foi o preço, e isso mexe com quem vai comprar e com quem vai vender.
Marcos Campos
Mercado sem filtro · por Marcos Campos
Abre o Instagram, entra num grupo de lojista, e a sentença é sempre a mesma: o mercado derreteu, os chineses vão engolir todo mundo, o seu carro não vale mais nada. Ou então aparece blogueiro (pago, claro!) falando maravilhas de um chinês.
Calma. Respira. Bora pros números.
Em uma frase, sem massagem: a invasão chinesa é real, mas o terrorismo em cima dela não é. E muitas vezes quem faz o barulho é quem está ganhando dinheiro com ele.
O mercado não derreteu. Está vendendo mais.
Segundo a Fenabrave, setembro fechou com 509.686 veículos emplacados, somando carros, motos, caminhões e ônibus. É recorde pro mês e 8,3% acima de setembro do ano passado.
Só em carros e comerciais leves foram 265.275 unidades, alta de 14,5%. No ano, já são mais de 4,2 milhões de veículos, 14,4% a mais que no mesmo período de 2025. A própria Fenabrave projeta fechar 2026 com alta perto de 8,6%.
Pra quem vai comprar, o recado é simples: o mercado está vendendo bem, não tem motivo pra pânico. Pra quem é lojista, berrar que está tudo acabando não traz venda nem dinheiro pro bolso. O que traz é estudar, entender o detalhe e se antecipar.
Carros chineses: onde está o terremoto de verdade
Hoje são pelo menos 15 marcas chinesas vendendo carro no Brasil: BYD, GWM, Caoa Chery, JAC, Geely, GAC, MG, Leapmotor, Zeekr, Denza, Omoda & Jaecoo, Jetour, Changan, Avatr e Foton.
Em setembro, elas venderam 56.766 carros, 21,4% do mercado. Um ano antes eram 23.422, ou 10,1%. Mais que dobraram (+142%).
Agora a parte que quase ninguém conta. Tirando os chineses, as demais marcas venderam cerca de 208 mil carros em setembro de 2025 e cerca de 208 mil em setembro de 2026. Ficaram no mesmo lugar. O bolo cresceu, e o chinês comeu a fatia nova. Ninguém derreteu.
E tem mais: a fatia chinesa caiu de 23,2% em agosto pra 21,4% em setembro, e BYD e Geely recuaram pela primeira vez depois de meses de alta. Não quer dizer que a onda acabou. Quer dizer que onda tem crista, e crista não dura o tempo todo.
Jeep Compass: o carro é o mesmo, a régua é que mudou
As chinesas chegaram com mais por menos: mais tela, mais tecnologia, mais equipamento, pelo mesmo dinheiro ou menos. As outras marcas tiveram que reagir com ajuste de preço, promoção, bônus e um monte de coisa pra chamar sua atenção.
Isso aparece nos números. O preço médio efetivamente pago num carro novo caiu 3,5% entre junho de 2025 e junho de 2026, de R$ 157,7 mil pra R$ 152,1 mil (Bright Consulting). O Jeep Compass usado desvalorizou 15,7% em doze meses (Auto Avaliar). E em setembro o Chery Tiggo 7 vendeu mais que ele.
Mas olha: o Compass não vai acordar ruim amanhã. Ele foi referência entre os SUVs médios por anos porque é bom carro, e continua sendo. O que mudou foi a régua de preço. Pra quem vai comprar, é hora de negociar. Pra quem vai vender, é hora de fazer conta com calma, sem pânico.
Psiu: tô usando o Compass como exemplo, tá? Tem vários outros casos assim no mercado.
Desde julho a gente vive uma sensação estranha de tabela. Agora parece que está tudo um pouco mais ajeitado. E ainda tem a eleição: só de saber quem vai governar, a emoção do consumidor já muda bastante. Fica de olho.
Leapmotor C10: o chinês que me fez engolir umas palavras
Quem me acompanha sabe que eu nunca fui fã declarado de carro chinês. Mas tenho que ceder: tem grupo grande, marca grande e muita tecnologia embarcada.
Os dois Leapmotor C10 no estúdio da Kikoautos, em Taubaté.
E aí aparece a Leapmotor. Andei, testei, usei. Tenho minhas críticas, mas ela entrega bastante. Gravei um vídeo mostrando o carro, tá aqui embaixo.
O diferencial não está só no carro. Está em quem está por trás. A Stellantis, dona de Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram, investiu na Leapmotor em 2023 e criou com ela, em 2024, a empresa que leva a marca pra fora da China. Isso traz loja espalhada pelo país, volume e assistência, o pacote que falta pra muita chinesa.
O C10 em números
SUV médio de quase 4,74 m, chegou ao Brasil em novembro de 2025.
Duas versões: 100% elétrica (218 cv) e Ultra-Híbrida REEV (215 cv). No REEV, o motor a gasolina só gera energia. Quem empurra o carro é sempre o elétrico.
Lançado a R$ 189.990 (elétrico) e R$ 199.990 (REEV). Hoje o REEV tem tabela de R$ 219.990, mas pra CNPJ saiu por R$ 192.490 em setembro.
REEV com até 950 km de autonomia combinada (ciclo WLTP) e recarga rápida de 30% a 80% em 18 minutos.
A marca ainda é pequena: 1.183 emplacamentos em setembro, menos de meio por cento do mercado.
Por dentro do C10: painel digital, tela central e acabamento claro.
Por 190 e pouco no CNPJ, é um baita carro. Pros concorrentes, é uma briga realmente difícil.
Carro bom não acorda ruim. O que muda é a régua de preço.
Se fizer só isso
Antes de fechar qualquer carro, chinês ou não, responde três perguntas:
Tem concessionária da marca perto de mim?
Quantos desses eu já vi rodando na rua?
Ele encaixa no meu dia a dia? Principalmente no elétrico: tem que ter logística pra carregar.
Faz a conta pensando no que você enxerga do mercado, e não só na emoção. Mas também não joga tudo na razão, senão capaz de você nem comprar carro. Não é verdade?
Ouça quem vive o mercado, não quem vive a marca
Você dificilmente vai ouvir um vendedor de BYD falar bem, com sinceridade, de um GWM. E nem é culpa dele: o trabalho dele é vender a bandeira que ele veste.
É por isso que a gente é multimarcas há 38 anos. Aqui não tem bandeira. O consultor pode colocar o Leapmotor do lado do Compass, o BYD do lado do GWM, e te dizer o que faz sentido pra você, pro seu bolso e pra sua família.
E você: compraria um chinês hoje? Se sim, qual te pegou? Se não, o que falta? Me responde, que eu leio tudo.
Fica em paz, Marcos Campos Kikoautos · multimarcas desde 1988 · kikoautos.com.br
Fontes: Fenabrave, via Avaliar, via O Hoje; Agência Brasil, O Tempo, Vrum e AutoIndústria; Bright Consulting e Auto Canaltech; Leapmotor C10: Stellantis, e AutoPapo, Mundo do Automóvel para PCD Despachante Dok. A comparação entre chinesas e demais marcas é conta nossa com esses números.
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